Orçamento de Usinagem: Hora-Máquina, Setup e Material

Quase toda oficina de usinagem já passou por isso: o cliente pede o preço de uma peça, o orçamentista abre o desenho, faz uma conta de cabeça e chega a um número. Às vezes o número acerta. Às vezes a peça vira prejuízo, e só se descobre quando o lote já saiu do torno ou do centro de usinagem.
Fazer orçamento de usinagem de forma consistente não exige fórmula mágica. Exige conhecer o custo da hora da sua máquina, estimar com honestidade o tempo de setup e o tempo de ciclo, e não esquecer os itens que ficam fora da conta: ferramentas, tratamentos, terceirização e margem. Este guia mostra o caminho, com um exemplo numérico ilustrativo.
O que compõe o preço de uma peça usinada
Em resumo, o preço de uma peça usinada é a soma de cinco blocos, mais a margem:
- Material, incluindo o sobremetal e as perdas.
- Setup, dividido pelo tamanho do lote.
- Tempo de ciclo multiplicado pelo custo hora-máquina.
- Ferramentas e consumíveis.
- Tratamentos e operações terceirizadas.
- Margem (e, fora do escopo deste texto, os impostos que se aplicam à sua operação).
O bloco mais difícil de acertar é o terceiro, porque depende de um número que muita oficina nunca calculou direito: o custo hora-máquina.
Como calcular o custo hora-máquina de um centro de usinagem (fórmula do custo hora-máquina)
O custo hora-máquina é quanto custa, por hora, manter a máquina trabalhando, estando ela produzindo ou não. A ideia é somar todos os custos anuais ligados à máquina e dividir pelas horas que ela realmente trabalha por ano.
Depreciação
É o valor de aquisição dividido pela vida útil esperada. Um centro de usinagem de R$ 600.000 com vida útil de 10 anos perde R$ 60.000 por ano de valor contábil. Dividido por 2.000 horas produtivas por ano, são R$ 30 por hora. Se você financiou a máquina, vale somar o custo do capital (juros) a esse item.
Energia
Multiplique a potência média consumida (não a potência de placa) pelo preço do kWh. Uma máquina que consome em média 12 kW, com kWh a R$ 0,90, custa R$ 10,80 por hora.
Manutenção
Preventiva, corretiva, óleo, fluido de corte, filtros. Uma regra prática comum é estimar um percentual do valor da máquina por ano e ajustar com o histórico real da oficina. Com 3% ao ano sobre R$ 600.000, são R$ 18.000 por ano, ou R$ 9 por hora.
Operador
Salário mais encargos e benefícios, dividido pelas horas efetivamente trabalhadas. Se um operador cuida de uma máquina, o custo inteiro entra na hora dela. Se cuida de duas, divida entre elas.
Overhead (custos indiretos)
Aluguel ou área ocupada, programação CAM, qualidade, supervisão, software, administração. Esses custos existem mesmo sem a máquina cortando, então precisam ser rateados nas horas produtivas.
Horas produtivas: o divisor que engana
Um ano tem mais de 8.000 horas, mas a máquina não trabalha todas elas. Descontando turnos, feriados, paradas e manutenção, 2.000 horas por ano já é um número realista para operação em um turno. Se você dividir pelo total de horas disponíveis em vez das horas efetivamente utilizadas, o custo hora-máquina fica artificialmente baixo e a oficina vende barato sem perceber.
Tempo de setup: o custo que o lote dilui
O setup é o tempo de preparar a máquina: fixar a morsa ou o dispositivo, zerar peças, carregar ferramentas, rodar o primeiro programa, conferir a primeira peça. Ele acontece uma vez por lote, então seu peso no preço de cada peça cai conforme o lote cresce.
Por isso, o mesmo desenho pode ter preços muito diferentes para 5 e para 500 peças. Cotar sempre o preço para uma única quantidade esconde isso do cliente e prejudica você. Uma boa prática é apresentar faixas de quantidade, mostrando como o preço unitário cai com o lote.
Tempo de ciclo: quanto a peça fica na máquina
O tempo de ciclo é o tempo para usinar uma peça, da primeira à última operação, incluindo trocas de ferramenta, movimentos em vazio e viradas de face. Há três formas comuns de estimá-lo:
- Experiência: peças parecidas que já foram feitas. Funciona bem para orçamentista experiente e peça conhecida.
- Cálculo por operação: volume de material a remover, avanço, rotação e profundidade de corte. Dá mais confiança em peças novas.
- Simulação no CAM: o mais preciso, mas custa tempo de programação antes mesmo de existir pedido.
Como calcular o tempo de ciclo
Tc = tempo de corte + trocas de ferramenta + movimentos em vazio + carga e descarga
O tempo de corte vem de volume removido ÷ taxa de remoção de material, ou de comprimento de passe ÷ avanço, somando todas as operações.
Exemplo ilustrativo (o suporte de alumínio do exemplo mais abaixo): corte 7 min + trocas de ferramenta 1,5 min + movimentos em vazio 1,5 min + carga e descarga 2 min = 12 min por peça.
Seja qual for o método, registre depois o tempo real medido. É esse histórico que melhora o próximo orçamento.
Material e sobremetal
O material não é o peso da peça acabada. É o peso do bruto que você precisa comprar: a barra ou o bloco com o sobremetal necessário para a usinagem, mais as sobras que não servem para mais nada (ponta de barra, serra, fixação). Em geral:
- Calcule o bruto a partir das dimensões da peça mais o sobremetal em cada face.
- Inclua o corte da serra e o refugo esperado.
- Considere o preço por quilo, ou por barra, na quantidade realmente comprada. Material comprado em pouca quantidade costuma custar mais.
Em peças pequenas e baratas o material pesa pouco. Em peças de aço inox, titânio ou alumínio aeronáutico, ele pode ser o maior item do preço.
Ferramentas, tratamentos e terceirização
Três itens que costumam ficar de fora da conta:
- Ferramentas e consumíveis: pastilhas, fresas, brocas, machos. Rateie o desgaste por peça, principalmente em materiais difíceis. Uma ferramenta especial para uma peça só entra no lote, não no custo geral.
- Tratamentos: têmpera, nitretação, anodização, zincagem, pintura. Quase sempre são terceirizados, e o preço do fornecedor, o frete e o prazo precisam entrar no orçamento.
- Operações terceirizadas: retífica, eletroerosão, soldagem, controle dimensional. Some a margem sobre o serviço de terceiro se você o gerencia.
Margem
A margem é o que paga o risco, o capital parado e o crescimento da empresa. Dois pontos práticos:
- Margem e markup não são a mesma coisa. Uma margem de 25% sobre o preço de venda equivale a um markup de cerca de 33% sobre o custo. Misturar os dois é um erro clássico.
- Margem pode variar por situação: cliente novo, peça com risco técnico, lote muito pequeno, prazo apertado. O importante é que a variação seja uma decisão consciente, não um chute.
Exemplo ilustrativo de orçamento de usinagem
Os números abaixo são hipotéticos, apenas para ilustrar o método. Não são referência de mercado, e cada oficina precisa usar seus próprios dados.
Cenário: suporte em alumínio, lote de 20 peças, em um centro de usinagem de 3 eixos.
1. Custo hora-máquina
| Item | R$/hora |
|---|---|
| Depreciação (R$ 600.000, 10 anos, 2.000 h/ano) | 30,00 |
| Energia (12 kW médios a R$ 0,90/kWh) | 10,80 |
| Manutenção (3% ao ano sobre o valor da máquina) | 9,00 |
| Operador (com encargos) | 45,00 |
| Overhead rateado | 25,00 |
| Total | 119,80 (cerca de R$ 120) |
2. Custo por peça
| Item | Cálculo | R$/peça |
|---|---|---|
| Setup | 1,5 h × R$ 120 ÷ 20 peças | 9,00 |
| Usinagem | 12 min (0,2 h) × R$ 120 | 24,00 |
| Material | 1,2 kg de bruto × R$ 28/kg | 33,60 |
| Ferramentas | desgaste rateado | 4,00 |
| Anodização (terceirizada) | preço do fornecedor | 6,00 |
| Custo total | 76,60 |
3. Preço com margem
Para uma margem de 25% sobre o preço de venda: 76,60 ÷ (1 − 0,25) = R$ 102,13 por peça, antes de impostos.
Agora veja o efeito do lote. Com 100 peças em vez de 20, o setup cai de R$ 9,00 para R$ 1,80 por peça, e o custo vai para R$ 69,40. Com apenas 5 peças, o setup sobe para R$ 36,00 por peça e o custo passa de R$ 100. É por isso que cotar um único preço para qualquer quantidade quase sempre está errado.
Planilha ou software de orçamento: quando muda a conta
A planilha funciona bem para começar, e muitas oficinas orçam com ela por anos. O problema aparece quando:
- mais de uma pessoa orça e cada uma tem uma planilha diferente;
- o custo hora-máquina muda e nem todas as cópias são atualizadas;
- o tempo de ciclo é estimado de cabeça, de forma diferente para cada peça;
- alguém precisa abrir o arquivo 3D, identificar bolsões, furos e roscas e contar tudo manualmente;
- o orçamento demora dias, e o cliente já pediu preço a outro fornecedor.
O software de orçamento para usinagem reduz esse trabalho lendo o modelo 3D e aplicando um mesmo modelo de cálculo para todos. A Quotation Factory, por exemplo, reconhece no arquivo STEP características como bolsões, furos e roscas, e calcula o orçamento a partir dos dados de máquina, material e taxas que você cadastra. Veja como isso funciona em usinagem CNC e confira os planos na página de preços. Se a sua oficina também dobra chapa, veja o cálculo de dobra de chapa. Se quiser comparar com a abordagem de planilha, leia também planilha de Excel vs software de orçamento.
Perguntas frequentes
Como fazer orçamento de usinagem do zero?
Calcule o custo hora-máquina da sua máquina, estime o tempo de setup e o tempo de ciclo da peça, some o material com sobremetal, as ferramentas e os tratamentos terceirizados, e aplique a margem. Depois divida o setup pelo lote para ver o preço unitário em cada faixa de quantidade.
Qual a diferença entre custo hora-máquina e valor cobrado por hora?
O custo hora-máquina é o que a máquina custa por hora para a oficina. O valor cobrado por hora é esse custo mais a margem. Orçar usando o custo sem margem é a forma mais comum de trabalhar sem lucro.
Quantas horas por ano devo usar no cálculo da hora-máquina?
Use as horas realmente produtivas, e não as horas disponíveis. Dividir pelo total do ano deixa o custo da hora artificialmente baixo. Para um turno, 1.800 a 2.200 horas por ano costumam ser um ponto de partida razoável, mas ajuste com seus dados.
O custo de setup entra no preço por peça?
Sim. Divida o tempo de setup, multiplicado pelo custo hora-máquina, pelo tamanho do lote. Para lotes pequenos, o setup pode ser a maior parte do preço de cada peça.
Próximo passo
Se sua oficina ainda orça com planilhas e leva dias para responder, vale ver o processo funcionando com peças reais. Agende uma demonstração da Quotation Factory e traga alguns desenhos para testar.











